Introdução por Francisco Guerreiro: Na nossa missão contínua de
divulgar as personalidades que enriquecem o bartending nacional, hoje
conversamos com Ricardo Cardim, Bar Manager do Hotel Evolution Cascais Estoril.
Ricardo partilha connosco a sua intensa jornada desde a vitória emocional no
Algarve até à representação de Portugal no Mundial na Madeira, revelando os
bastidores de uma preparação rigorosa e a alma por trás do seu cocktail
"Essência".
I. O Caminho para a Vitória
1. Francisco Guerreiro (FG): Ricardo, sagraste-te
Campeão Nacional em março de 2024, numa prova em que a tua participação esteve
em risco. O que te disse o teu "feeling" naquele momento?
Ricardo Cardim (RC): Foi um momento de grande superação. A minha
participação esteve seriamente em risco devido a compromissos profissionais,
mas tive um "feeling" que me fez fazer de tudo para estar presente.
Mesmo tendo dormido pouquíssimas horas e tendo de regressar no próprio dia para
trabalhar, fui. Acabei por receber a notícia da vitória à distância, com uma
emoção enorme: afinal, seria o meu primeiro Mundial.
II. A Preparação: O Rigor por
trás do Balcão
2. FG: Para um Mundial, o talento não basta. Criaste
um horário semanal que incluía desde o estudo de 400 páginas até ao treino de
memória olfativa. Qual foi a vertente mais desafiante?
RC: Sem dúvida, a disciplina de manter um horário semanal
rigoroso. Trabalhava em dias distintos o discurso em inglês, a técnica, o
conhecimento teórico (estudei cerca de 400 páginas) e as provas de tasting para
treinar a memória olfativa e gustativa. Perdi a conta aos vídeos de competições
que vi, sempre à procura de um detalhe que pudesse melhorar a minha
performance. Foram meses de insistência até me sentir confortável para dar o
meu melhor.
III. A Criação: O Cocktail
"Essência"
FG: O teu cocktail "Essência" é uma
homenagem às tuas raízes em Sesimbra. Podes explicar-nos a história por trás
desta composição?
RC: O "Essência" é um pedaço da minha história.
O Gin representa a zona de zimbro selvagem da região
da Azóia;
A Amora traz a memória das amoras silvestres que
colhia em criança;
E o Pêssego é, simplesmente, a minha fruta preferida.
Juntei o Timur Berry (paragon) e o equilíbrio da
Laranja e do Limão.
É uma bebida que une a técnica de um long drink
à minha identidade mais profunda.
Ficha Técnica: Cocktail Essência
- Base: Gin (Zimbro da Azóia)
- Coração: Amora Silvestre e Pêssego
- Modificadores: Timur Berry by Paragon
- Equilíbrio: Laranja e Limão
- Categoria: Long Drink
A Experiência no Mundial (WCC 2024)
FG: No Mundial da Madeira, tiveste um contratempo
inicial com a organização da caixa de sumos que resultou numa penalização. Como
recuperaste o foco para a fase seguinte?
RC: Não foi o melhor começo e fiquei nervoso. Mas, quando
cheguei à área das decorações, vi a minha esposa, Andreia, na minha frente. Ela
sempre foi a minha inspiração e quem me motivou a participar. Naquele momento,
o treino intensivo "clicou": eu sabia exatamente onde estava cada
fruta e utensílio. Consegui realizar as cinco decorações dentro dos 15 minutos
e recuperei a confiança.
FG: E a "prova de fogo" no palco, com o
público e o júri? Como descreves esse momento?
RC: É uma descarga de adrenalina pura. Tivemos um minuto
para apresentar a história do cocktail e sete minutos para preparar cinco
bebidas iguais. Terminei dentro do tempo com uma técnica quase perfeita —
apesar de uma tampa de uma garrafa ter "saltado" no final. Como eram
cocktails de mais de 20 cl, o desafio físico era enorme. Saí do palco com a
sensação clara de missão cumprida.
V. Desafios e Criatividade na
Semifinal
FG: Na semifinal, enfrentaste o "Market
Challenge". Optaste por uma proposta arriscada com Rum Agrícola e pimento
verde grelhado. Qual era o objetivo?
RC: No Mercado dos Lavradores, com um orçamento de 40€ e
1h30 de tempo, quis fugir à tropicalidade comum. Usei rum agrícola, pimento
verde grelhado e manjericão. Embora tenha usado por engano um rum overproof,
o cocktail ficou equilibrado. Foi uma proposta arriscada para paladares
conservadores, mas o meu objetivo era apresentar algo verdadeiramente
diferenciador e original.
VI. Futuro e Legado
FG: Acabaste por não chegar à finalíssima, mas
figuraste entre os semifinalistas mundiais ao lado de potências como Hong Kong
e Letónia. O que levas desta experiência para o teu trabalho no Hotel Evolution
Cascais Estoril?
RC: Levo uma aprendizagem que servirá para a vida toda.
Ver Portugal ser anunciado como semifinalista entre cerca de 70 países, perante
os meus colegas a vibrar, foi inesquecível. Saio com o empenho e a motivação
renovados para continuar a competir e, quem sabe, conquistar o título mundial
no futuro.
FG: Alguma mensagem final para a comunidade, Ricardo?
RC: Quero agradecer ao Francisco Guerreiro pelo convite e
por ser uma inspiração para a nossa comunidade ao longo dos anos. O Bartending
é uma arte de persistência e paixão.









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