sexta-feira, 20 de março de 2026

Entrevista Exclusiva: Ricardo Cardim Bar Manager – Hotel Evolution Cascais Estoril. A Essência de um Campeão no Palco Mundial.

Introdução por Francisco Guerreiro: Na nossa missão contínua de divulgar as personalidades que enriquecem o bartending nacional, hoje conversamos com Ricardo Cardim, Bar Manager do Hotel Evolution Cascais Estoril. Ricardo partilha connosco a sua intensa jornada desde a vitória emocional no Algarve até à representação de Portugal no Mundial na Madeira, revelando os bastidores de uma preparação rigorosa e a alma por trás do seu cocktail "Essência".

I. O Caminho para a Vitória

1. Francisco Guerreiro (FG): Ricardo, sagraste-te Campeão Nacional em março de 2024, numa prova em que a tua participação esteve em risco. O que te disse o teu "feeling" naquele momento?

Ricardo Cardim (RC): Foi um momento de grande superação. A minha participação esteve seriamente em risco devido a compromissos profissionais, mas tive um "feeling" que me fez fazer de tudo para estar presente. Mesmo tendo dormido pouquíssimas horas e tendo de regressar no próprio dia para trabalhar, fui. Acabei por receber a notícia da vitória à distância, com uma emoção enorme: afinal, seria o meu primeiro Mundial.

II. A Preparação: O Rigor por trás do Balcão

2. FG: Para um Mundial, o talento não basta. Criaste um horário semanal que incluía desde o estudo de 400 páginas até ao treino de memória olfativa. Qual foi a vertente mais desafiante?

RC: Sem dúvida, a disciplina de manter um horário semanal rigoroso. Trabalhava em dias distintos o discurso em inglês, a técnica, o conhecimento teórico (estudei cerca de 400 páginas) e as provas de tasting para treinar a memória olfativa e gustativa. Perdi a conta aos vídeos de competições que vi, sempre à procura de um detalhe que pudesse melhorar a minha performance. Foram meses de insistência até me sentir confortável para dar o meu melhor.

III. A Criação: O Cocktail "Essência"

FG: O teu cocktail "Essência" é uma homenagem às tuas raízes em Sesimbra. Podes explicar-nos a história por trás desta composição?

RC: O "Essência" é um pedaço da minha história.

O Gin representa a zona de zimbro selvagem da região da Azóia;

A Amora traz a memória das amoras silvestres que colhia em criança;

E o Pêssego é, simplesmente, a minha fruta preferida.

Juntei o Timur Berry (paragon) e o equilíbrio da Laranja e do Limão.

É uma bebida que une a técnica de um long drink à minha identidade mais profunda.

Ficha Técnica: Cocktail Essência

  • Base: Gin (Zimbro da Azóia)
  • Coração: Amora Silvestre e Pêssego
  • Modificadores: Timur Berry by Paragon
  • Equilíbrio: Laranja e Limão
  • Categoria: Long Drink

A Experiência no Mundial (WCC 2024)

FG: No Mundial da Madeira, tiveste um contratempo inicial com a organização da caixa de sumos que resultou numa penalização. Como recuperaste o foco para a fase seguinte?

RC: Não foi o melhor começo e fiquei nervoso. Mas, quando cheguei à área das decorações, vi a minha esposa, Andreia, na minha frente. Ela sempre foi a minha inspiração e quem me motivou a participar. Naquele momento, o treino intensivo "clicou": eu sabia exatamente onde estava cada fruta e utensílio. Consegui realizar as cinco decorações dentro dos 15 minutos e recuperei a confiança.

FG: E a "prova de fogo" no palco, com o público e o júri? Como descreves esse momento?

RC: É uma descarga de adrenalina pura. Tivemos um minuto para apresentar a história do cocktail e sete minutos para preparar cinco bebidas iguais. Terminei dentro do tempo com uma técnica quase perfeita — apesar de uma tampa de uma garrafa ter "saltado" no final. Como eram cocktails de mais de 20 cl, o desafio físico era enorme. Saí do palco com a sensação clara de missão cumprida.

V. Desafios e Criatividade na Semifinal

FG: Na semifinal, enfrentaste o "Market Challenge". Optaste por uma proposta arriscada com Rum Agrícola e pimento verde grelhado. Qual era o objetivo?

RC: No Mercado dos Lavradores, com um orçamento de 40€ e 1h30 de tempo, quis fugir à tropicalidade comum. Usei rum agrícola, pimento verde grelhado e manjericão. Embora tenha usado por engano um rum overproof, o cocktail ficou equilibrado. Foi uma proposta arriscada para paladares conservadores, mas o meu objetivo era apresentar algo verdadeiramente diferenciador e original.

VI. Futuro e Legado

FG: Acabaste por não chegar à finalíssima, mas figuraste entre os semifinalistas mundiais ao lado de potências como Hong Kong e Letónia. O que levas desta experiência para o teu trabalho no Hotel Evolution Cascais Estoril?

RC: Levo uma aprendizagem que servirá para a vida toda. Ver Portugal ser anunciado como semifinalista entre cerca de 70 países, perante os meus colegas a vibrar, foi inesquecível. Saio com o empenho e a motivação renovados para continuar a competir e, quem sabe, conquistar o título mundial no futuro.

FG: Alguma mensagem final para a comunidade, Ricardo?

RC: Quero agradecer ao Francisco Guerreiro pelo convite e por ser uma inspiração para a nossa comunidade ao longo dos anos. O Bartending é uma arte de persistência e paixão.